Ortopedia e Traumatologia da Criança e do Adolescente

AS ORIENTAÇÕES AQUI APRESENTADAS DESTINAM-SE AOS PACIENTES E SEUS FAMILIARES. FOI ESCRITA EM LINGUAGEM LEIGA,
EVITANDO-SE TERMOS TÉCNICOS. EMBORA NOSSA INTENÇÃO SEJA CONTRIBUIR COM INFORMAÇÕES GERAIS, ELAS NÃO SUBSTITUEM
AS ORIENTAÇÕES DADAS PELO SEU MÉDICO, QUE CONHECE OS DETALHES DO SEU PROBLEMA E PODERÁ, DE FATO, REALIZAR
ORIENTAÇÃO EFETIVA E PARTICULARIZADA.

Pé torto congênito

Alguns tipos de pés tortos podem ser causados por alterações na coluna ou por doenças congênitas dos músculos e articulações. Nestes casos existem várias outras alterações presentes no recém-nascido. Entretanto, a maior parte dos pés tortos ocorre em crianças absolutamente normais em relação aos outros aparelhos, sendo que a causa é desconhecida. Por esta razão este tipo de pé é chamado pé torto congênito idiopático. Muito já se investigou sobre a causa, mas ela ainda não foi esclarecida. O que se sabe é que o problema não é apenas no pé, mas começa na perna, pois a musculatura da barriga da perna é atrofiada. Quando a criança nasce com o pé torto, os ossos praticamente não estão afetados. O que provoca o posicionamento alterado do pé são a retração e o encurtamento de músculos, tendões e ligamentos da barriga da perna, parte posterior do pé e parte interna do pé. Entretanto, se não houver tratamento adequado, com o tempo, os ossos se deformam.
Em uma família em que já há caso de pé torto, existe tendência um pouco maior para que outras crianças sejam afetadas, entretanto, esta tendência não é forte e não se estabeleceu um padrão de transmissão da doença.
Ao se examinar o pé alterado, o ortopedista deve estabelecer se o pé torto é verdadeiro ou se é postural. O pé postural se assemelha ao pé torto porque o pé ficou “preso” em uma determinada posição antes de nascer. Geralmente não precisa tratamento a não ser algumas manipulações a serem feitas pela própria mãe e a correção será completa.
Entretanto, se o pé torto for verdadeiro, há necessidade de começar o tratamento o mais cedo possível, de preferência já no berçário ou, o mais tardar, com uma semana de idade. O ortopedista que irá tratar o pé deve avaliar se as alterações são graves, rígidas, flexíveis, etc, pois isto influencia no resultado. O tratamento atual é pela técnica de Ponseti que consiste em massagens e manipulações do pé em uma sequencia padronizada a ser feita pelo ortopedista e, em seguida, a confecção de gesso. Este gesso deve chegar até a coxa e manter o joelho dobrado, pois, de outra forma, ele poderá escorregar e causar ferimentos no calcanhar. Toda a semana o gesso é retirado no dia do atendimento, nova manipulação é feita e novo gesso é confeccionado. Este esquema é seguido até que três das quatro alterações do pé torto sejam corrigidas. Geralmente o equino (pé caido) não é corrigido pelo gesso e deverá ser feita uma secção do tendão do calcanhar para acabar de colocar o pé na posição correta. Esta secção é feita por um pequeno corte através da pele, sobre o tendão. Alguns ortopedistas a realizam com anestesia local e outros com sedação da criança.
Cuidados com o gesso
O profissional que faz um gesso de pé torto deve estar atento à possibilidade de compressão e formação de escaras. Uma criança com gesso não deve ficar irritadiça, chorar sem parar, deixar de se alimentar, etc. Se os dedos dos pés ficarem pálidos ou escuros ou inchados estará ocorrendo compressão. A orientação é comunicar-se com o médico que providenciará o exame da criança e, se for o caso, a retirada do gesso. Se o profissional não for encontrado e a criança estiver chorando muito os pais devem retirar o gesso em casa. Para isto, coloquem duas colheres de vinagre na banheira com água e vá apertando o gesso até ele amolecer. Depois, encontre a ponta da atadura do gesso e desenrole.
O banho com o uso do gesso pode ser feito com a proteção das pernas da criança com sacos plásticos fixados com fita crepe ao redor da coxa. Durante o uso, o gesso pode ser calçado com meias para evitar que sujem ou que se danifiquem quando a criança bate um pé contra o outro.
Outra preocupação dos pais é se o tendão que foi cortado volta a se formar. A resposta é sim. A criança pequena tem grande capacidade de regeneração e forma-se outro tendão na região do corte, com características normais e mesma resistência.
Uma vez completado o período de gesso, a criança deve usar uma órtese, sendo a mais comum a de Denis-Browne. Eu uso uma órtese especial, com apoios específicos, que é menos limitante que a órtese de Denis-Browne, porém esta conduta não é universalmente aceita pelos especialistas na técnica de Ponseti e seu médico não está errado ou desinformado se recomendar o aparelho original.
Algumas crianças tratadas de pé torto, à medida que crescem, a ponta do pé tende a desviar para dentro. Se isto ocorrer, dependendo da idade, haverá necessidade de uma cirurgia de transferência do tendão para completar a correção.
A criança tratada de pé torto logo ao nascer tem grande possibilidade de desenvolver um pé normal, seja no aspecto, seja na função. São capazes de calçar sem problemas e praticar esportes. Entretanto, o pé sempre será um pouco menor do que deveria ser e a barriga da perna sempre será um pouco mais fina, por melhor que tenha sido a correção do pé.